quarta-feira, 8 de junho de 2011

Perguntas e respostas - 02.

Marcela: …vi também seu canal no You Tube e o vídeo de lançamento do Sebastian. Adorei! Aqui você desconstrói uma parte do que escrevi na monografia a partir dos poucos materiais que estão disponíveis na Internet – e, pelo visto, não muito confiáveis! Realmente dizem que o comercial foi baseado na cena do The Blues Brothers, em que Cab Calloway anima uma platéia. E que Jose Possi Neto foi escolhido o diretor e na época dirigia o “Emoções Baratas”, de cujo elenco surgiu o Sebastian. Vamos ver se entendi... posso dizer então que o comercial foi baseado no “Emoções Baratas” e tem elementos do The Blues Brothers? É meio que a inversão do texto, mas faz muita diferença de sentido, deslocando o foco maior no filme.

Resposta: Criei o post "Porque foi criado o Sebastian" para explicar detalhadamente um processo que levou 4 anos e extrapola as simples hipóteses que a imprensa divulgou e as declarações dadas pelos que vislumbraram a oportunidade de pegar carona na história. Neste parágrafo responderei o núcleo da questão:
Os filmes de lançamento da campanha "AbuseUse C&A" e não "o filme" não foram baseados em The Blues Brothers tampouco no Emoções Baratas do Possi. Eu criei a estrutura da campanha de maneira que pudéssemos produzir tudo de uma só vez, como se fosse uma série de TV para ser exibida em capítulos. Cada capítulo com o foco na data promocional do varejo, como dia-das-mães, dia-dos-namorados, dia-dos-pais, etc, com a promessa de que "cada vez que você ouvir AbuseUse, tem ofertas selecionadas na C&A". Elementos estéticos e estilo de narrativa cinematográfica, aí sim, foram aplicados, já na fase de roteirização e não na de conceituarão, baseados nas obras já citadas, somadas outras referências como Grace Jones, Max Headrom e outros ícones de modernidade da época. Mas, apenas para desenhar a estética dos filmes. É porisso que eu tanto contestei os jornalistas mal informados e os oportunistas caronistas, por suas declarações simplórias. Eu sou publicitário, não cineasta. Meu cliente me contrata para criar campanha publicitária, comercial, não obra de arte ou entretenimento.
Também é simplório afirmar que o Possi foi chamado apenas por seu "Emoções Baratas". Como expliquei em post anterior, eu tinha um convívio profissional com o Possi, fruto de atividade paralela no ramo de produção de espetáculos, que originou uma parceria na criação e concepção dos filmes. Dos filmes, roteiros, decupagem, não da campanha, do conceito comercial. O feeling de que o Possi agregaria qualidade, novidade e estética aos filmes, culminou com a indicação do Sebastian. É porisso que eu sou reticente ao afirmar que eu criei o Sebastian. Eu criei um ícone comercial. O Sebastian, em si, já veio criado, com o carisma e talento dele. O Possi o destacou dentre as inúmeras opções e talhou sua performance, criando assim o personagem. Eu prefiro dizer que eu criei o ícone, o Possi o personagem.
Meu conselho, Marcela: não se atenha a detalhes dos filmes e sim da campanha, do conceito da mesma. Você está escrevendo uma tese de propaganda e marketing e não de cinema.

Marcela: …tenho a opinião de que de alguma forma o Sebastian não se enquadra mais nos “anseios” da empresa. E também não concordo. Acho válida a proposta de agregar valores do mundo da moda ao contratar modelos, estilistas, etc … Mas quem disse que o Sebastian não é fashion?! Ele poderia coexistir com as modelos, em comerciais separados, sei lá, mas não sumir! É uma pena... Vários artistas já estrelaram campanhas, mas era do Sebastian que as pessoas gostavam e lembravam. E, como todo mundo sabe e você mencionou, o endosso de celebridades tem seus prós, mas também seus contras, já que hoje endossam uma marca hoje e amanhã estarão endossando outra, muitas vezes se envolvem em escândalos e “queimam o filme da empresa” e por aí vai, né? Um garoto-propaganda fixo é outra coisa. Se bobear acontece o que aconteceu com o Carlinhos da Bombril, que fez tanta falta e foi tão solicitado pelo público, que acabou voltando! Enfim, é só a opinião de uma simples estudante e consumidora...

Resposta: Vou abordar este assunto por aqui, porque diz respeito à atualidade e ao período pós-lançamento da campanha, portanto, não se enquadra ao tópico criado especialmente para tratar da criação do personagem. Primeiramente vamos lembrar que a opinião das empresas é formada a partir da opinião de seus dirigentes e, ao longo desses 21 anos, desde a criação do personagem, os dirigentes mudaram.
O retorno de Carlinhos Moreno só ocorreu por isenção pessoal dos dirigentes da Bombril e veio acompanhada do retorno do Olivetto à frente da conta publicitária do anunciante. Vamos lembrar que a mudança na direção executiva da C&A culminou no encerramento da Avanti, a house-agency que deteve a conta durante 24 anos, construiu a imagem e a história de sucesso da C&A na América Latina.
Marcela, você pegar uma celebridade pronta, criada a partir de um poderoso complexo de mídia, é infinitamente mais fácil e requer muito menos talento do que fazer o que eu fiz com o Sebastian e o Olivetto com o Carlinhos Moreno. Infelizmente, a geração que antecede a sua e muitos da sua, caracterizam-se por profissionais mal-preparados, equivocados, de visão limitada, acostumados ao fácil, ao cômodo, ao estilo pasteurizado e enlatado que é amplamente oferecido pelos meios de comunicação na atualidade. A falta de preparo profissional somada à incapacidade intelectual resulta em insegurança e auto-conhecimento de sua mesquinhez, gerando um sentimento auto-depreciativo que se defende, se protege, adotando a soberba como muleta.

Marcela: Não entendi muito bem quando disse que no momento em que cogitaram a Gisele você ainda estava na “geladeira”. Como assim? Não era mais da Avanti e não estava atuando nem como free-lancer para a C&A, mas sabia o que acontecia nos bastidores? É isso?

Resposta: Como expliquei no post anterior, devido à mentalidade paternalista da empresa, àquela época, ex-funcionários não eram aceitos como colaboradores ou fornecedores. A Gisele e o que ela viria a significar para a imagem da marca começou a ser cogitada no final da década de 90 e veio a concretizar-se no ano 2001. A partir do ano 2000 a "geladeira" começou a "descongelar" e minha amizade com o pessoal da Avanti e colaboradores contribuiu muito para o "degelo" e para minha permanência, sim, "nos bastidores".
Quando fui consultado, inicialmente, me postei contra, contudo, ao longo das pesquisas que foram sendo realizadas, comecei a mudar de opinião, especialmente porque notamos que poderíamos integrar Gisele e Sebastian, harmoniosamente, sem causar confusão no entendimento público da proposta. O Ralph é profundo conhecedor e interpretador da parte teórica, especialmente no segmento de varejo de confecção e conduziu todas as pesquisas no sentido de alavancar a imagem da C&A ao patamar alcançado com o apoio da imagem da Gisele, que era muito diferente do objetivo pelo qual foi criado o AbuseUse e o Sebastian 10 anos antes. Gisele foi a ponte para a imagem que a C&A quer ter hoje. Hoje, a C&A não está mais preocupada em vender a roupa mais barata do mercado. Hoje, o conceito que eles sempre adotaram, o "good value for money" se traduz em valor agregado e não em economia. Hoje, eles podem adotar esse conceito, pois, têm uma marca construída com bom-gosto e responsabilidade. Um patrimônio. Com lojas e produtos que condizem com esse conceito. E aí reside o "X" da questão: para você integralizar uma imagem como a da Gisele ao seu patrimônio, você tem que se preparar para promover essa mudança em suas lojas e em seus produtos. Foi isso que me deixou reticente, à época, e que o Ralph veio a garantir que seria a transformação maior que a empresa sofreria nos 10 anos seguintes.

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