quarta-feira, 8 de junho de 2011

Perguntas e respostas - 01.

Marcela: Entrei em contato com você para esclarecer algumas coisas e não correr o risco de cometer erros conceituais grosseiros e supervalorizar ou desmerecer alguém. Nem todas as fontes citam seu nome, por exemplo, o que é uma injustiça. Cheguei até você, pois uma professora da faculdade, que me ajudou a elaborar o pré-projeto da monografia, fez uma pesquisa em 2002 sobre negros na publicidade brasileira, inclusive entrevistado o Woody Gebara. Ela me enviou um material que tinha e a entrevista na íntegra. Nesse material (extraído de revistas e da Internet) havia um texto seu da seção ‘Painel do Leitor’ de uma revista (Ilustrada), em que você desmente uma série de informações publicadas, afirmando que o fato de o Sebastian ser negro não foi um pedido do cliente (C&A); que a C&A não foi a primeira marca a colocar no ar negros em campanhas publicitárias; que o filme de estréia do Sebastian não foi o primeiro da C&A a apresentar negros, outros já o faziam, representando a diversidade étnica do Brasil; e que vocês não escolheram um negro para dizer que eram, nas suas palavras, “legais, bonzinhos, politicamente corretos, não-racistas ou qualquer rótulo dessa natureza”. Achei muito legal a sua atitude de se posicionar a respeito e descobri que você era um dos criadores do Sebastian. Então, joguei ‘Waldir Costa’ no Google para me informar, até que cheguei ao seu outro blog.

Resposta: Pois é, Marcela, eu sempre me preocupei somente em promover os meus clientes e não a mim. Sempre fui dos bastidores e não me preocupei se caráters menos dignos estavam levando as glórias às minhas custas.
A matéria que você citou foi publicada no jornal Folha de São Paulo, em seu caderno "Folha Ilustrada" e era uma primazia de "desinformação". Como eu tenho gastrite e não posso engolir porcaria, tive que botar pra fora e exigi retratação.
O que importa, de fato, é que os documentos comprovam a verdade. Eu tenho inúmeras matérias de veículos impressos que estampam eu, Ralph e Cimino, até mesmo na capa. O Meio&Mensagem, sem dúvida o maior veículo especializado na nossa área, fez uma matéria, a principal daquela edição, entrevistando eu e o Ralph. O Prêmio Profissionais do Ano, da Rede Globo, foi concedido à mim e ao Possi, pela criação do AbuseUse e do Sebastian e não a mais ninguém e isso está gravado na história do Prêmio. E eu tenho o documento "mor": minha carteira profissional.

Marcela: Na sua opinião, resumidamente, o que significou o Sebastian para a C&A? O que fez com que ele obtivesse tanto sucesso? Como foi a repercussão na época? Você tem dados numéricos de aumento nas vendas?

Resposta: A criação de um personagem símbolo de momentos promocionais era uma missão dada, já há muito, pelo Van Der Zee, a mim e ao Ralph. No festival de Cannes, em 1989, vimos um filme do whisky JB que nos deu a idéia. Seria um personagem fashion, que apresentaria as ofertas e conceitos promocionais cantando e dançando. Essa história plantada de que foi criado com base no personagem interpretado por Cab Calloway no filme The Blues Brothers é pura balela. As gags utilizadas no filme foram sugeridas pelo Zé Possi, com base no The Blues Brothers, assim como a música que serviria de tema base para a criação da nossa música. O Cab Calloway já era bem idoso e criar um personagem baseado nele só pode passar na cabeça de quem não tinha a menor noção dos policies da C&A. Isso é interpretação daqueles que só viram o vulto, pela janela, atrás da cortina, sem saber exatamente o que acontecia no interior. Eu planejei toda a estrutura da campanha no espetáculo "Emoções Baratas", que o Possi estava montando e a Bia Aydar estava produzindo. Só eu, o Possi e a Bia já tinham visto os ensaios e sabiam do que se tratava. Tanto que o Sebastian era um dos bailarinos que estrearia o espetáculo.

Eu disse ao Ralph e ao Cimino: "Não adianta a gente só criar o personagem. Precisamos mais do que isso, para não ficar brega. Precisamos criar um sinônimo, só nosso, de período de ofertas. E assim foi criado o tema "AbuseUse C&A. Ofertas selecionadas". A primeira frase que o Sebas canta no filme de lançamento é: "Atençao, pra você eu vou contar, sempre que você ouvir AbuseUse, tem ofertas selecionadas na C&A". Veja no meu canal no Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=yVrh6yt9EdA

O Sebastian significou isso para a C&A. O início da era de consolidação da imagem de varejo de moda que não é brega e se compromete a praticar o conceito "good value for money". Um personagem que, pelo seu talento e carisma, conquistou a simpatia de famílias inteiras e a C&A vende roupas para a família toda e não somente para os fãs da Beyonce.

A repercussão foi estupenda, desde o início e ainda continua sendo. Outro dia tomava um café com o Sebas e um sem número de pessoas vieram pedir autógrafos, tirar fotos, perguntando se era verdade que ele não faria mais C&A e que torciam para ele voltar. Sebas é uma figura, uma simpatia e as pessoas não têm receio de se aproximar dele e serem recusadas, como acontece quando se aproximam dos grandes astros.

Eu não lembro de números. Faz muito tempo e eu sou péssimo com números. Hehehe...

Marcela: Muitos textos afirmam que o Sebastian rompeu preconceitos e foi o primeiro garoto-propaganda negro na publicidade brasileira, o que eu mesma questionei. Essas afirmações categóricas são muito perigosas, né? (Na hora me lembrei do Grande Otelo, das Óticas do Povo, por exemplo.) E seu texto na revista também desmente isso. Para descrevê-lo sem errar, posso afirmar que o Sebastian foi um dos primeiros e poucos negros a permanecer tanto tempo como garoto-propaganda de uma marca? Ou você acha que devo evitar esse tipo de afirmação?

Resposta: Não sei se foi o primeiro negro, acho que não. O fato é: o Sebastian foi o ícone da C&A por 20 anos. No Brasil, acho que só o Carlinhos Moreno para a BomBril permaneceu por muito tempo e mesmo assim interrupto. O Sebastian ficou por 20 anos ininterruptos.

Marcela: Este ano o Sebastião Fonseca anunciou o fim do seu contrato com a C&A, após 20 anos. O que você achou disso? Acredita que ele não mais se enquadrava à proposta de “glamourização” da C&A a partir da agregação de atributos do mundo fashion, que se iniciou a partir da campanha com a Gisele Bündchen e continua com as outras modelos? (Essa é uma pergunta que eu gostaria muito de fazer a alguém que atualmente trabalhe na área de Marketing da C&A. Eu gostaria de tentar, embora não tenha certeza de que vá conseguir, pois sei que a empresa tem uma política de sigilo bem rígida. Você acha que vale a pena eu tentar?)

Resposta: Olha, costuma-se dizer que tentar não dói. Se você se preparar para ouvir balela e souber filtrar e analisar o que vai ouvir...

Marcela: Falando em Gisele Bündchen... Como contou, após sair da Avanti você continuou trabalhando com a C&A, como free-lancer. Você chegou a participar de alguma forma da campanha de 25 anos? Se sim, poderia me contar um pouco como foi? Tendo participado ou não, o que achou da campanha? Considera que foi mais um marco?

Resposta: Quando o nome Gisele começou a ser cogitado eu ainda estava na "geladeira". Eu nunca fui favorável, não pela Gisele, que é uma excelente profissional, mas é o que já expliquei: o Sebastian é único. Um nome da moda passa como a moda, você tem que renovar sempre. E aí esse ícone faz publicidade para outras marcas. Qual a identidade que ele tem com a sua marca? Na época, se você estivesse na Rua do Ouvidor, aí no Rio, em frente à loja C&A e perguntasse para 10 passantes se conheciam a Gisele e o Sebastian, certamente 10 responderiam que conheciam o Sebastian e apenas 1 saberia que a Gisele é uma modelo, ponto, nada mais que isso.

Tanto que não tiveram coragem de aposentar o Sebas já naquela época. E olha que tentaram viu!
Aí vem uma mente brilhante (isso é ironia, tá) e soluciona: vamos por os dois juntos nos anúncios, Sebas e Gisele. Queriam fazer o mesmo com o Ricky Martin, que se recusou, aí o Sebas ficou fazendo só as campanhas de telefone celular, na fase do Ricky.

Mas, sim, foi marcante. A C&A faz ser marcante. É um caminhão de dinheiro investido em mídia e produção.

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